segunda-feira, 15 de maio de 2017

Os pastorinhos de Fátima e as canonizações sob a ótica bíblica

Francisco e Jacinta Marto
Os irmãos pastorinhos Jacinta e Francisco Marto viraram santos neste sábado (13) quando o papa Francisco leu a fórmula de canonização no início de missa campal na praça do Santuário de Fátima, na comemoração do centenário das aparições de Nossa Senhora do Rosário, em 13 de maio de 1917. Mais de 400 mil peregrinos, que acompanharam a cerimônia de três horas de duração em piedoso silêncio, aplaudiram, levantando lenços e bandeiras, sob sol quente e céu nublado. Eles vieram de 55 países e 45 mil caminharam a pé em uma peregrinação de vários dias.

O bispo de Leiria e Fátima, d. Antônio Marto, parente de Jacinta e Francisco e da prima Lúcia, a terceira vidente, leu uma breve biografia dos pastorinhos e pediu que fossem canonizados dentro do ritual da Congregação para as Causas dos Santos. As crianças afirmaram ter visto Nossa Senhora, e ter recebido dela um segredo dividido em três partes, com imagens do inferno, o anúncio de guerras e a visão de mártires da Igreja.

O menino brasileiro Lucas, de 9 anos, subiu ao altar de Fátima na hora do ofertório para se apresentar ao papa como beneficiário do milagre aprovado para a canonização dos pastorinhos. Um narrador informou que ele foi curado em poucos dias, após ter caído de uma altura de quase 7 metros em Juranda, a 69 km de Campo Mourão, no Paraná, em 3 de março de 2013. Entrou em coma e perdeu parte da massa cefálica. Os médicos disseram que ele tinha mínimas chances de sobrevivência. Saiu curado da UTI e sem sequelas, depois de os pais terem rezado aos pastorinhos.

As canonizações sob a ótica bíblica
Segundo a própria Igreja Católica Apostólica Romana, canonização é o ato de atribuir o estatuto de santo a alguém que já era beato. É a confirmação final da Santa Sé para quem um beato seja santo e somente o papa, líder máximo católico, pode conceder esse estatuto. O Código de Direito Canônico da Igreja Católica, no seu cânon 1186, estabelece que “para fomentar a santificação do povo de Deus, a Igreja recomenda à veneração peculiar e filial dos fiéis a Bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, que Jesus Cristo constituiu Mãe de todos os homens, e promove o verdadeiro e autêntico culto dos outros Santos, com cujo exemplo os fiéis se edificam e de cuja intercessão se valem.”; e, ainda no artigo 1187 acrescenta que “só é lícito venerar com culto público os servos de Deus, que foram incluídos pela autoridade da Igreja no álbum dos Santos ou Beatos”. 

Como o tempo passa e algumas ações religiosas continuam a ser realizadas praticamente sem nenhuma reflexão mais profunda acerca do seu significado e relevância espiritual no contexto bíblico, é importante pontuar se são tradições religiosas repetidas por motivações diversas (especialmente políticas ou econômicas) ou ensinamentos bíblicos embasados por aquilo que Deus revelou. Apesar de parecer, os dois termos não significam a mesma coisa. Joel Peters, estudioso dos assuntos católicos, escreveu 21 razões pelas quais não se pode aceitar a autoridade da Bíblia somente (Sola Scriptura) para assuntos de fé. Ali está a diferença entre tradição e ensino bíblico.

Bem, sem mais rodeios, não consigo encontrar fundamentação bíblica para as canonizações de gente como essas crianças, antigos papas ou piedosos católicos já mortos há séculos. Muitos deles, diga-se de passagem, que tiveram uma conduta admirável e louvável em vários aspectos. Não entro no mérito da vida dessas pessoas, pois somente Deus pode julgar o ser humano. Mas entro no mérito do processo e de seu significado. Vamos as minhas principais considerações:
1. O conceito bíblico de santos não é o mesmo apregoado pelos que defendem a canonização. A palavra grega hagios, normalmente traduzida para santos, tem muito a ver com o conceito de pessoas separadas do pecado, portanto consagradas a Deus. Há muitos textos, mas vamos a alguns deles que evidenciam que os santos são os cristãos vivos de hoje em dia e não apenas quem já morreu. A palavra não denota um grupo de pessoas diferenciada ou em nível acima dos demais que estão militando na fé cristã ainda. O apóstolo Paulo, testemunhando ao rei Agripa, relembra que ele perseguiu muitos santos e os jogou nas prisões (Atos 26:10). Ainda ele, autor da carta aos romanos, destaca na introdução que os destinatários de sua epístola são santos (Romanos 1:7). E vai mais além. Diz que, em determinado momento da história do mundo, os santos hão de julgar o mundo (I Coríntios 6:2). Ele está falando de gente comum que decide se colocar nas mãos de Deus e abandonar o pecado ou de um grupo seleto de gente que, por decisão de homens, passa a exibir esse status de santos? Há outros textos nessa mesma linha e a ideia é a mesma.
2. Os santos, na Bíblia, são os que passam pelo processo de santificação aqui e isso não está associado a meramente se fazer obras em favor dos outros. O apóstolo Pedro destaca que, assim como Deus é santo, Ele espera que Seus filhos se tornem santos ( I Pedro 1:15). Mas não há indicação de que essa busca por santidade deva acontecer somente depois da morte e nem que está baseada apenas em boas obras praticadas. É uma ação divina que acontece obviamente enquanto a pessoa está viva (I Tessalonicenses 5:23) e que vai até a vinda de Jesus Cristo. Logicamente se Deus habitar na vida de uma pessoa e impressionar sua mente, isso resultará em mudança de comportamento e consequente realização de obras dignas (Efésios 2:8-10 e Filipenses 2:12,13).
3. Não há qualquer aprovação divina para que alguém busque pessoas mortas como intercessores perante Ele. Os mortos não possuem consciência do que se passa com os vivos (Eclesiastes 9:5,6 e Jó 7:8-10), portanto, não podem ser intercessores junto a Deus. No livro de Apocalipse, capítulo 5 e verso 8, há menção das orações dos santos, porém não há qualquer base para se pensar que mortos possam fazer preces. Está falando, em realidade, de uma visão profética dada ao apóstolo João em que ele tem um vislumbre do que é o santuário celestial e a comparação de que o incenso, que era usado no santuário terrestre no tempo em que o povo de Israel antigo mantinha essa representação autorizada divinamente, significa justamente a oração dos santos (ou seja, pessoas tementes a Deus).
4. A única intercessão amparada pela Bíblia é a de Jesus Cristo. Apesar da reputação digna e da maneira honrosa de vida que tiveram muitos homens e mulheres fiéis cristãos ao longo dos séculos, isso não os credencia a ser intercessores junto a Deus. Há um só mediador entre Deus e os homens (I Timóteo 2:5) e, desde o tempo do santuário terrestre, fica bem claro que o sangue do cordeiro representava o perdão dos pecados, ou seja, a morte de Cristo (Hebreus 8, 9 e 10 os capítulos inteiros e Apocalipse 19).
Mesmo que cerimônias de canonização reúnam milhares de pessoas, ganhem repercussão midiática mundial e sejam praticadas há séculos, biblicamente não encontro consistência para depositar minha fé nelas. Prefiro me manter ao que dizem os textos bíblicos e espero sinceramente que os interessados em saber mais acerca do tema voltem-se ao livro sagrado para conhecê-lo mais profundamente e encontrar nele as respostas para assuntos religiosos e espirituais.

Um comentário:

  1. As coisas de Deus são para nós um mistério,para entender um ato como a canonização precisa que entendamos todo o contexto de vida,período de tempo, e o que estava acontecendo a época, a fé é imprescindível para o entendimento, Deus faz o que quiser,quando quiser tendo ou não o nosso consentimento,quem somos nós para dizer a Deus o que está correto ou não,nem tudo está escrito na Bíblia, mesmo naquela que contém 73 livros,imagine nas que Lutero retirou os livros que não eram do seu interesse.Para entender a elevação de uma alma a ser santa, precisa ser católico apostólico, precisa ter muita fé e humildade pois o entendimento é dado aos pequenos,e não aos letrados.

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